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Conto · Blood Realm

O Último Frasco

Um Conto do Penhasco de Morn

Dark Fantasy 7 de setembro de 2026 ~17 min de leitura

Segundo conto do díptico do Penhasco de Morn. Precedido por O Banquete dos Culpados.

Ilustração do Penhasco de Morn: uma praia de ossos sob a lua doente e o solar de torres agudas no alto do rochedo

O Litoral Esquecido

A chuva fina de Mornwick não caía; pairava. Uma névoa fria que não molhava a roupa de uma vez, mas se infiltrava por baixo dela, encontrando a pele e ali permanecendo, como a mão de um afogado. O Emissário parou na única rua do vilarejo, uma trilha de lama entre casas de madeira escura que pareciam se encolher umas contra as outras, buscando calor que não existia. Ao longe, no alto, o Penhasco de Morn erguia sua muralha de rocha negra contra o céu, e sobre ele, meio engolido pela neblina, o Solar de Vhalgrave cravava torres agudas na barriga das nuvens.

Para os poucos aldeões que cruzavam seu caminho — olhos baixos, ombros curvos, o passo apressado de quem não quer ser lembrado —, ele não era um homem. Era um presságio. Sabiam que, se a Coroa enviara um Emissário, o silêncio que descera sobre aquele litoral não era o silêncio de nobres que apenas se atrasaram para voltar da caça.

Ele fora moldado desde a infância para os problemas que os reis não ousam nomear. Vestia-se de negro por inteiro — a capa que o dissolvia nas sombras, as luvas, as botas — e assumia, ao começar o trabalho, uma máscara teatral de bizarrice antiga, que apagava do rosto qualquer traço de humanidade. Na cintura, uma espada. No cinto, os frascos: óleos que ardem e não se apagam, sais que devolvem os sentidos, venenos destilados por suas próprias mãos. Órfão, bastardo, criança sem nome recolhida e afiada como se afia uma lâmina — não tinha laços, nem passado, nem outra função além de ser enviado e voltar. Sempre voltava.

O prefeito de Mornwick não veio recebê-lo. Não havia prefeito. Havia apenas uma velha à porta de uma casa, que o encarou por trás de uma cortina rasgada e disse, antes de sumir na penumbra, três palavras que o vento levou monte acima:

— Já é dele.

A Igreja Sem Padre

A igrejinha de pedra ao fim da rua estava de portas abertas, velas acesas por dentro, embora nenhum sino tocasse e nenhum padre viesse à soleira. O Emissário entrou.

O ar de dentro estava errado. Reconheceu o padrão de imediato, porque já o cheirara em outras terras esvaziadas de calor: o cheiro da ausência arrumada. Não havia corpos — havia o lugar limpo de onde os corpos foram removidos, o chão lavado com esmero, e por baixo do sabão, para quem sabe respirar por trás de uma máscara, o odor tênue de cobre velho, de gordura, de enxofre que nenhuma vela honesta exala. As imagens sagradas nas paredes tinham os rostos lixados até virarem pedra lisa. E o crucifixo sobre o altar estava de cabeça para baixo.

Solo consagrado, sim. Mas não ao céu.

Ele se agachou diante do altar, e os dedos enluvados varreram a base da pedra até encontrarem, sob uma camada de cera derramada de propósito para escondê-la, uma marca talhada: uma seta e três riscos. O código mudo dos que caçam homens por ofício. Presa aqui. Armadilha aqui. Cuidado com o chão. E, incrustado na talha, o resíduo escuro de sangue humano — apontando, com a teimosia de uma mão que morreu apontando, para a base do confessionário.

Alguém estivera ali antes dele. Alguém que sabia caçar, que perdeu, e que teve o sangue-frio de acender uma vela na escuridão para quem viesse depois. O Emissário jamais saberia o nome do homem. Jamais saberia que se chamava Thaddeus Quill, que fora contratado por moedas, que vira uma joia no pescoço de um padre morto e agradecera ao próprio algoz por saber onde ela estava. Mas reconheceu o ofício na talha, e algo raro se moveu por trás da máscara: respeito.

Do lado de fora, o vento mudou. Trouxe o cheiro do mar — e, sob o sal, por um instante, algo doce e podre. Algo que lembrava carne esquecida, em quantidade que nenhum vilarejo de vivos produziria.

E então uma voz desceu das sombras do coro, cordial, cultíssima, sem pressa nenhuma, porque o tempo lhe pertencia:

— Um hóspede da Coroa. Que honra rara, para uma casa tão esquecida.

O Anfitrião

Ele saiu da penumbra vestido de anfitrião: alto, de uma beleza fria e errada — bela como um túmulo bem esculpido —, a pele cor de cera, os olhos que não devolviam a luz das velas. Lorde Corvin Vhalgrave. Na garganta do padre morto que agora lhe servia de porteiro, dois furos velhos e brancos, cicatrizados havia muito.

O Emissário não se curvou. Não aceitou o vinho oferecido, nem a cama, nem o descanso "que aquela casa reservava a todos os seus visitantes". Fez o que fora treinado a fazer desde menino: mediu a fera antes de escolher onde cravá-la.

— O senhor desceu para me receber à noite — disse, a voz saindo abafada e cortante por trás da máscara. — Quando foi a última vez que viu o sol sobre o próprio litoral?

Vhalgrave riu, baixo, apreciativo, e devolveu cada sondagem transformada em espelho. Mas o Emissário não viera vencer um debate. Viera colher amostras, e cada resposta era uma gota num frasco. Falou do solo consagrado no nome errado. Falou dos rostos apagados dos santos. E, por fim, arremessou aos pés do lorde um florim de prata benta — pegue, se puder — e viu que ele não se abaixou, não o tocou, apenas o encarou com um sorriso que já não tinha nada de hospitaleiro.

— Prata, amanhecer, solo sagrado — recitou o ancião as próprias fraquezas, com o tédio glacial de quem lê uma lista de compras. — O senhor é minucioso, Emissário. Os outros que subiram até mim eram brutos. Espadas e tochas e orações. O senhor chegou com perguntas.

E foi nas perguntas, entre uma resposta e outra, que a verdade do banquete se montou diante do Emissário — parte confissão orgulhosa do monstro, parte dedução fria de quem sabe ler o que não é dito. Vinte nomes. Os mais poderosos e mais podres do reino, reunidos naquele solar sob o pretexto de uma festa. Cada um deles carregava uma dívida de sangue com o nome Vhalgrave: um magistrado que enforcara o servo mortal do lorde; um coronel que queimara viva uma aldeia que levava seu nome; um médico que comprara seus mortos sem nunca perguntar por que não apodreciam; um inspetor que engavetara os desaparecimentos por uma bolsa de moedas. Não foram convidados. Foram cobrados.

Um caíra primeiro, no jardim de inverno, a garganta desfiada e duas marcas de presa no pescoço. Os outros se acusaram, se trancaram, confessaram os próprios crimes só depois que a porta já não abria. Seis tombaram. E os últimos três — o caçador, o médico e o soldado — compreenderam, tarde demais, que não caçavam um assassino, e sim um morto antigo que andava. O monstro os colheu um a um. O caçador foi o último, e morreu deixando uma seta talhada em pedra e sangue.

— Todos caminharam sorrindo para a minha mesa — concluiu Vhalgrave, quase terno. — E o senhor, Emissário, chegou perguntando onde ficam os ossos. Isso me diz que vale o meu esforço. Faz três séculos que não preciso me esforçar.

O ar encheu-se do farfalhar de couro. As velas da nave começaram a se apagar em fileira, aproximando-se como uma maré de escuridão.

— Deixe-me poupar-lhe as outras perguntas — disse o ancião. — Deixe-me apenas tirar a venda dos seus olhos. O senhor merece ver o paraíso antes de virar parte dele.

E a igreja se dissolveu.

O Paraíso Sob a Máscara

As paredes de pedra fumegaram e viraram ar. O teto abriu-se num céu impossível. A chuva fria cessou. E o Emissário viu-se de pé numa praia dourada e quente, sob um sol de mel, o mar de um azul-turquesa lambendo a areia macia, gaivotas riscando o horizonte, o cheiro de sal limpo e flores. Um paraíso — cálido, sereno, e tão perfeito que cada sentido do corpo jurava ser real.

A ilusão da joia. Total. Feita para adormecer a presa em beleza enquanto o predador a alcançava por dentro do sonho.

Mas o Emissário nunca confiara nos próprios olhos — olhos mentem, ouvidos mentem, a pele morna de um sol falso mente. Há apenas uma parte do corpo que a magia dos sentidos tem dificuldade de subornar, porque é primitiva demais, animal demais: o cheiro, e a dor crua que o acompanha. Sob a máscara, os dedos encontraram o frasco de sais voláteis sem que os olhos precisassem confirmar. Ele o esmagou contra o próprio rosto.

O vapor cáustico subiu. E o paraíso gritou.

Não foi o mundo que mudou — foi o Emissário que voltou. O ardor rasgou-lhe as narinas, incendiou-lhe os olhos, e a dor real, química, honesta, cortou através da mentira como uma faca através de seda. O sol de mel tremeu. O azul do mar coalhou e engrossou. O cheiro de flores dilacerou-se, e por baixo dele jorrou a verdade: o fedor colossal, cavernoso, de carne humana em decomposição numa escala que nenhuma língua nomeia. Trezentos anos de banquetes.

Ele estava na borda do Penhasco de Morn. O "mar sereno" para o qual o sonho o convidava a caminhar era a queda. E lá embaixo, na praia real sob a lua doente, estendia-se aquilo que a joia escondia: uma costa inteira coberta de ossos. Crânios aos milhares, empilhados onde a maré os deposita e os devolve, costelas e tíbias estendendo-se pela areia negra até onde a vista alcança. E a água não era azul. Era vermelha — escura, espessa, uma maré de sangue e putrefação lambendo a montanha de carcaças, arrastando alguns crânios de volta ao mar e cuspindo outros à praia, num ciclo eterno e obsceno. Não era uma praia. Era o campo de descarte de três séculos de fome. Era a lata de lixo de um deus.

E no centro dela, sobre um trono de caveiras carbonizadas, entre brasas que ardiam sem chama, esperava o corpo verdadeiro de Vhalgrave: a pele repuxada sobre o crânio, os olhos duas brasas, e no peito, pulsando através de um medalhão de prata negra, a joia vermelho-escura que tecera o paraíso inteiro.

— Trezentos anos — disse o ancião, farejando o ar, e havia nele algo que não era tédio: surpresa. — E ninguém jamais acordou sozinho. Reis, bispos, feiticeiros. Todos caminharam sorrindo para dentro do mar. O senhor foi o primeiro que cheirou a verdade. — Ele abriu os braços sobre o cemitério. — Chega de sonhos, então. Desça até a minha praia, Emissário. Vamos ver do que é feito o homem que o Rei manda quando reza.

Os Quatro Preparos

O Emissário não desceu como os trezentos desceram — cegos, valentes, tolos. Desceu como fora criado: transformando cada minuto da descida numa preparação para o minuto de matar. Ou morrer. Para um homem como ele, nunca haviam sido opostos.

Primeiro, a palavra. Antes de dar um passo penhasco abaixo, agachou-se sob a lua e escreveu, curvado sobre o pergaminho para protegê-lo da chuva, apertado e sem um traço desperdiçado. Selou-o com cera negra e o anel da Coroa, amarrou-o à pata de um corvo mensageiro e o lançou na tempestade rumo às colinas. O que estava escrito, não releu. Não precisava. A verdade, aprendera cedo, é uma lâmina que se guarda embainhada até o golpe.

Depois, o corpo. Derramou o óleo âmbar ao longo do gume da espada, até o aço brilhar oleoso — uma faísca, e a lâmina viraria tocha. Soprou pó de prata fina nas juntas da luva, do gorjal, das costuras da armadura leve: cada ponto onde a criatura pudesse agarrá-lo passaria a ser, para ela, brasa. E bebeu o tônico de guerra, que desceu queimando e fez o coração disparar, o sangue esquentar, a dor recuar para longe.

E bebeu, também, de um segundo frasco — menor, mais escuro, que não estava com os outros. Fê-lo depressa, quase escondido de si mesmo, e por um instante a máscara pendeu para baixo, como se o rosto por trás dela hesitasse. Um sabor amargo, de cobre e de fim. Não pensou no que era. Guardou esse pensamento junto com a carta, embainhado, para a hora certa. E tornou a apertar a máscara no rosto.

Por fim, o terreno. Enquanto descia, espalhou pelos degraus de rocha o pó de sais que reage à carne necrótica; derramou sobre os primeiros ossos o óleo cáustico que gruda e queima devagar; enterrou entre os crânios cápsulas de vidro fino, cheias de vapor de enxofre e prata, para estourarem sob o peso de qualquer coisa morta que as pisasse. Ele era mais fraco, mais lento, mais novo. Jamais venceria numa disputa honesta — e por isso não haveria nada de honesto. Buff em si. Nerf nele. A matemática fria dos que nascem sem força e precisam fabricá-la.

Ao chegar ao pé do penhasco, Vhalgrave ergueu-se do trono de ossos, e a maré vermelha recuou de seus pés como se o temesse.

— O senhor desceu se enfeitando — disse o ancião, e os olhos de brasa estreitaram-se ao sentir a prata, o óleo, o enxofre. — Trezentos anos de caçadores derramaram os mesmos venenos sobre a minha praia. Todos estão aqui, debaixo dos seus pés.

— Então serei o tricentésimo primeiro — respondeu o Emissário, a mão descendo até a fivela de ferro do cinto. — Mas serei diferente dos outros numa coisa, Lorde. Eu não vim para vencer o senhor.

E raspou o aço na fivela.

A Maré Vermelha

A faísca nasceu. A lâmina ardeu.

O Emissário não avançou — avançar era o que os trezentos tinham feito, e a frente era exatamente onde o monstro os queria. Ele plantou os pés sobre os ossos e esperou, a espada flamejante numa guarda baixa e paciente, oferecendo o próprio silêncio como isca. Um homem que devia estar apavorado, imóvel diante de um deus faminto.

E o vampiro hesitou. Porque um predador de três séculos aprendeu a ler o medo como um caçador aprende a ler cadáveres, e o que leu naquela máscara não batia com o cardápio. Nem tremor, nem suor, nem raiva — só a paciência oca de uma ferramenta esperando cumprir sua função. Para uma criatura que se alimenta de desespero, era como pôr diante de um faminto um prato vazio.

Então Vhalgrave atacou — porque o orgulho, mais uma vez, falou mais alto que a cautela. Sumiu do trono e reapareceu a um palmo, a mão de garras já se fechando sobre a garganta do Emissário. Mas o Emissário não tentou ser mais rápido; foi mais cedo. Seu corpo já se movia antes de o vampiro reaparecer, porque não reagira ao ataque, e sim ao padrão que trezentas carcaças haviam gravado naquela praia — a arrogância que ataca sempre a garganta primeiro. A cabeça deslizou para fora da linha, e o gorjal coberto de prata raspou os dedos do lorde.

A carne morta chiou. Vhalgrave sibilou, recolhendo a mão queimada — e essa fração de recuo foi a fresta fabricada a noite inteira. No mesmo movimento, o Emissário cravou a espada em chamas no cotovelo estendido, onde a articulação é fina e o fogo tem onde morder. O óleo grudou na carne necrótica e ardeu, subindo pelo antebraço como se a criatura fosse feita de gordura velha à espera de uma faísca. O grito do ancião rasgou a praia. Ao recuar, ele pisou uma das cápsulas enterradas, e o vapor de enxofre e prata subiu num sopro venenoso, manchando de roxo tudo que tocava.

Por um instante glorioso e frágil, a matemática esteve do lado do homem.

— Trezentos anos — rugiu Vhalgrave, a voz agora um trovão gutural sem nada de humano —, e nenhum me fez sangrar na minha própria praia.

Mas ele tinha razão sobre uma coisa: a resistência. Cada ferida se fechava. Cada veneno, ele resistia um pouco mais. Cada golpe de fogo, apagava um pouco mais rápido. E o tônico de guerra queimava depressa no sangue do Emissário — e, quando queimasse, todo o cansaço represado desabaria de uma vez.

O Emissário fez a conta num átimo. Se havia uma janela, fechava-se agora. Então apostou tudo na joia. Não anunciou, não mudou a postura — deixou o lorde crer que recuaria, cansado, como os outros. E, no instante em que a brasa dos olhos registrou a expectativa da fuga, fez o oposto: avançou para dentro do abraço do vampiro, o lugar mais perigoso do mundo, o único de onde se alcança o peito. A mão de garras agarrou a lâmina em pleno ar, a palma incendiando-se sobre o aço, e por um segundo suspenso os dois travaram ali, o fogo entre os rostos, a ponta a três dedos do medalhão. O Emissário soltou uma das mãos do punho, sacou a última cápsula — a mais concentrada — e a esmagou contra os olhos do lorde.

Vhalgrave urrou. A mão afrouxou. O Emissário empurrou.

E a joia rachou.

Não estilhaçou — rachou, uma fissura fina correndo pela pedra escura como um relâmpago congelado, e da fenda vazou uma luz vermelho-doente e um som terrível, como mil vozes exalando ao mesmo tempo o último ar preso por séculos. O mundo em torno convulsionou. A tempestade vacilou. As bordas douradas que a ilusão ainda sustentava desfizeram-se por completo, revelando a carniça em toda a sua verdade nua. E o ancião cambaleou, agarrando o peito, e nos olhos de brasa havia, pela primeira vez, algo que o Emissário reconhecia de todos os homens que já vira morrer: medo.

A joia rachada não o matou. Apenas o desancorou — arrancou-lhe os poderes emprestados, a ilusão, o domínio sobre a tempestade e as portas e os servos. O que restou foi o vampiro nu: sem truques, sem cenário, sem véu. Apenas a criatura, a fome, e a resistência descomunal de uma carne que se recusava a morrer. E, despido de tudo, Vhalgrave parou de brincar. O medo endureceu em ódio milenar, e ele veio como sempre fora por baixo de tudo — uma coisa faminta e velha demais para morrer, insultada, decidida a rasgar o homem em pedaços com as próprias mãos.

O tônico acabou.

O cansaço da noite inteira desabou de uma vez, e os braços do Emissário viraram chumbo, e a dor de todos os ferimentos que ele não sentira voltou cobrando juros. Mas ele entendia que havia duas formas de um vampiro matá-lo: podia rasgá-lo e descartá-lo como as trezentas na praia — ou podia bebê-lo. E só a segunda o mataria junto. Um monstro só bebe quando quer não apenas matar, mas consumir. O Emissário precisava fazer da própria morte a coisa que o ancião mais desejasse no mundo.

Então não recuou. Insultou.

— Trezentos anos, e tudo o que o senhor construiu foi uma pilha de lixo numa praia — disse, aparando uma garrada, cortando o flanco dele de raspão. — Isto não é um reino, Vhalgrave. É uma lata de lixo. E o senhor é o cão faminto que dorme dentro dela. — Marcou-lhe o rosto com a prata, viu a cicatriz roxa florescer na face que o fidalgo tanto prezava, e riu — o riso baixo e livre de um homem que já perdeu. — Os outros imploraram. Eu estou entediado.

E funcionou. Porque o pior insulto para um deus é o tédio. Vhalgrave deixou de querer apenas matá-lo e passou a querer quebrá-lo, consumi-lo tão completamente que nada restasse. Desarmou o Emissário com um golpe que estalou o pulso, ergueu-o pela frente da capa, arrancou-lhe a máscara teatral para ver, enfim, o rosto por baixo.

— Agora — sussurrou o ancião — nada de máscaras entre nós. Quero ver o rosto do único que me fez sangrar em três séculos... enquanto ele se apaga.

E cravou as presas na garganta do Emissário. E bebeu.

O Preço

Ele bebeu, e foi glória. Trezentos anos de tédio, e finalmente um sangue que valia a memória. Bebeu fundo, sôfrego, vingativo, saboreando a rendição, o triunfo, o silêncio que aquela morte deixaria no mundo. Bebeu a vida inteira do homem — e, com ela, sem saber, a segunda coisa que o Emissário engolira no alto do penhasco. A carta na manga que ele guardara não no pergaminho, mas nas próprias veias.

O primeiro sinal, Vhalgrave ignorou. Um calor estranho descendo pela garganta; tomou-o por prazer, fazia tanto tempo que não bebia com fome de verdade. Mas o calor não passou. Espalhou-se — do estômago ao peito, do peito aos braços —, uma brasa acendendo sob a pele morta onde nada deveria queimar. Ele afastou a boca do pescoço do homem, e uma linha de sangue escuro escorreu-lhe pelo queixo.

— O que... — arquejou. E era a mesma pergunta que ele fizera ao caçador, meses antes, na igreja. O que você fez. A pergunta que os poderosos sempre fazem tarde demais, quando a conta que ignoraram a vida inteira finalmente vence.

A brasa virou incêndio. Não o fogo alquímico da lâmina — aquilo ele apagava com vontade. Isto estava dentro, correndo nas veias que ele roubara, nas trezentas mortes que o sustentavam, e nenhuma vontade o alcançava, porque não era feitiço, nem prata, nem fé. Era veneno. Veneno comum, terreno, destilado por mãos humanas — a única coisa contra a qual três séculos de poder nunca precisaram de defesa, porque três séculos de presas nunca foram inteligentes o bastante para se envenenarem.

Longe, do fundo do poço em que afundava, o Emissário o ouviu. Uma palavra. O que. E, se a boca ainda lhe obedecesse, teria sorrido. Não sentia medo — fora criado sem lugar para ele. Havia apenas o registro frio e final: feito. Está feito. Ele bebeu. Não sabia se viveria. Suspeitava que não. E havia uma paz estranha e mórbida em partir assim, no meio da frase, sem o último capítulo, deixando o fim para quem viesse depois lê-lo nas carcaças e na carta.

Vhalgrave caiu de joelhos entre os crânios. A resistência que humilhara trezentos caçadores agora se voltava contra ele, prolongando o que deveria ser rápido, forçando-o a sentir cada estágio. A pele repuxada rachou. O sangue roubado apodreceu por dentro, as veias enegrecendo sob a carne como raízes de morte. Ele estendeu a mão para o Emissário caído — e talvez fosse para pedir um antídoto, talvez para uma última vingança, talvez apenas pelo horror de morrer sozinho depois de ter matado tanto. A mão tremeu. Alcançou. Não chegou.

— Trezentos anos de banquetes — arquejou o ancião, a voz já só cinza —, e eu morro... pelo jantar.

E Lorde Corvin Vhalgrave, o deus faminto do Penhasco de Morn, tombou de rosto sobre a própria praia de troféus, entre os milhares que devorou, virando enfim o que sempre fizera dos outros: mais uma carcaça na costa. A joia rachada apagou sua última luz.

O mar recolheu os dois corpos na escuridão. E ninguém — nem o Rei, nem os corvos, nem a lua doente — estava por perto para dizer qual dos dois parou de respirar primeiro.

Relatório do Emissário

Encontrado na corte, entregue por corvo, três dias antes de qualquer notícia do litoral. Lido por Sua Majestade sem que se soubesse — sem que jamais se viesse a saber — o desfecho. Local: Alto do Penhasco de Morn Status do Contrato: Em execução. Presumivelmente encerrado.

Vossa Majestade,

Quando estas linhas chegarem às suas mãos, é provável que eu já esteja morto. Escrevo-as, portanto, não como um homem que espera voltar, mas como um homem que prefere que a verdade volte em seu lugar. Perdoe a frieza. É a única língua que me ensinaram.

O que consumiu vossos nobres não foi um assassino, e sim um ancião — um morto que anda, chamado Vhalgrave, senhor deste litoral desde antes de vossos avós. Os vinte não foram convidados a uma festa; foram cobrados por dívidas de sangue que cada um julgava esquecida. A festa era a cobrança. Não os chore em demasia, Majestade: aquele castelo não reuniu inocentes. Reuniu contas vencidas. Ainda assim, ninguém merece a maré que os aguardava lá embaixo.

Registro aqui, para o próximo que vier — pois haverá um próximo, sempre há — tudo o que aprendi, para que ele não chegue cego como cheguei: a criatura teme a prata, o amanhecer, o solo verdadeiramente sagrado. Sustenta suas ilusões por uma joia de feitiço, uma pedra vermelha num medalhão de prata negra; quebrada a joia, cai o sonho, e sob o sonho não há praia nem paraíso, apenas o depósito de tudo que ele devorou. E há uma última coisa, a mais importante: a resistência dele vence o aço, vence o fogo, vence os anos. Não vence a química. Um monstro que nunca precisou temer veneno nunca aprendeu a resistir a ele. É o que carrego agora nas minhas próprias veias, à espera de que ele beba. Se estas linhas o encontraram, então ele bebeu, e a conta enfim venceu para ambos.

Confesso que, ao escrever isto na chuva, penso numa coisa tola, imprópria para um relatório. Penso em como todos nós — o vampiro sobre seu trono de crânios, os nobres em suas mesas, o caçador que me antecedeu e talhou uma seta na pedra, e eu, que fui feito lâmina e nunca abraço — lutamos a vida inteira por alguma coisa. Ele lutou por mais um inverno. Eles, por mais um pouco de poder que já não podiam gastar. O caçador, por deixar uma marca que sobrevivesse a ele. E eu luto agora por uma verdade que talvez ninguém agradeça. Lutamos, todos, sabendo — no fundo, sempre soubemos — que no fim de cada um há o mesmo fim. A maré sobe igual para o deus e para o gado. E ainda assim erguemos a lâmina. Ainda assim descemos o penhasco. Talvez seja isso, e não o sangue, o que de fato nos mantém de pé: não a esperança de vencer, que é mentira, mas a teimosia de cobrar o próprio preço antes de tombar.

Não sei se venci. É a natureza do que fiz que eu jamais saiba. Bebi a minha própria morte para que ela fosse também a dele, e a última coisa que verei não será a vitória, mas apenas o escuro chegando pelas bordas, sem me dizer quem apagou primeiro.

Se a costa de Morn amanhecer em silêncio, Majestade, mande consagrar aquela praia de verdade — no nome do céu, desta vez — e queimar o que a maré devolver. E, se lhe restar alguma clemência de sobra, não mande esculpir meu nome em pedra alguma. Homens como eu não deixam nome. Deixamos apenas o litoral um pouco mais quieto, por um tempo.

Por enquanto.

O caminho me chama, e eu já não distingo se é a estrada ou o fim. Vou de qualquer modo. É só isso que sempre soube fazer.

⚜   ⚜   ⚜

Fim

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