O Convite de Vhalgrave
O mar batia contra o Penhasco de Morn como um animal tentando derrubar a rocha, e no alto dele o Solar de Vhalgrave ardia em ouro falso. Mil velas, lustres de cristal lapidado, o som abafado de um quarteto de cordas tocando algo vienense e triste. Lá fora, um inverno sem misericórdia. Lá dentro, vinte e poucas almas importantes fingindo que o frio não as alcançaria.
Thaddeus Quill conhecia castelos assim. Foram construídos não para receber, mas para reter.
Ele não era um dos importantes. Era o que os importantes contratam e depois fingem não conhecer. As mãos calejadas, o terno emprestado que não lhe caía direito, os olhos que já tinham visto homens enforcarem-se por seus erros — tudo nele destoava do salão de seda. Estava ali como secretário de Sir Aldous Pelham, magistrado, o homem mais temido de três condados, que uma semana antes batera à sua porta com as mãos trêmulas e uma bolsa gorda.
— Recebi presentes — dissera Aldous, e mostrara a caixa. Um coração de carneiro pregado num convite de festa. Um bilhete numa caligrafia antiga demais, com uma frase só: A conta venceu.
Quill achou que caçaria um chantagista. Um inimigo de negócios. Algo com rosto humano. Aceitou o trabalho — ir à festa disfarçado de secretário e manter o magistrado vivo — e agora, encostado numa coluna do salão, observava o rebanho brilhante e entendia que talvez tivesse aceitado o trabalho errado.
O anfitrião não apareceu. Sua Senhoria se juntará aos convidados à meia-noite, disseram os criados de olhos vazios. Vinte nobres beberam o vinho escuro dele, comeram a carne dele, riram sob os lustres dele. E cada rosto ali carregava um cemitério particular atrás dos olhos: o Dr. Cassius Vane, que comprava defuntos frescos e nem sempre esperava que esfriassem; o Inspetor Bram Holloway, que enterrara mais casos do que corpos; o Coronel Reginald Thorne, cujas medalhas foram lavadas em sangue de aldeias sem nome. Quill os catalogava por hábito. Um caçador de homens nunca para de contar saídas, nem de pesar quem, numa sala, é predador e quem é presa.
Do lado de fora, a neve batia nas vidraças altas como dedos pedindo para entrar.
Então, à meia-noite, veio o grito.
O Primeiro Prato
Veio do jardim de inverno — um som agudo, rasgado, que cortou a valsa pela metade. Uma criada surgiu na porta do salão, branca como cera, e conseguiu dizer apenas três palavras antes de desabar:
— Ele está... aberto.
No chão, entre roseiras negras e uma fonte seca, sob a luz lunar que descia por uma cúpula de vidro, jazia Sir Aldous Pelham. O cliente de Quill. Seu sustento, sua responsabilidade.
A garganta não fora cortada. Fora desfiada — a carne puxada para os lados por dedos de força impossível, a traqueia exposta como um cano arrancado da parede. E, apesar disso, quase não havia sangue. A poça sob a cabeça era pequena demais para um homem inteiro. Dois furos limpos, espaçados quatro dedos, perfuravam o que restava da veia. Bebido.
As mãos de Quill não tremeram. Já tinham feito coisas piores — houve um homem em Whitcombe que morreu na forca pelo que ele fizera, e Quill ficara na multidão, de chapéu na mão, deixando a corda trabalhar. Mas seus olhos, treinados, já liam a cena. As portas do solar estavam trancadas pela tempestade. Ninguém entrara. Ninguém saíra. O que matara Aldous ainda estava entre os vivos daquele salão — ou fingia estar.
O Coronel Thorne sacou um revólver inútil. O Reverendo Sloane, o clérigo de mãos pálidas demais, contava as saídas com os olhos enquanto murmurava latim. O Dr. Vane empurrou os outros para "examinar o corpo" com um entusiasmo profissional que beirava a fome.
E, no alto da escadaria, uma criada murmurou algo que gelou mais que o mar lá fora:
— Sua Senhoria manda dizer que lamenta o ocorrido... e que a noite ainda é jovem.
Os Servos Que Não Piscam
Quill deixou os nobres se acotovelarem em torno do cadáver e fez o que ninguém naquele salão teria estômago para fazer: olhou para os criados. As pessoas importantes nunca olham para os criados. É por isso que morrem com tanta facilidade.
Havia sete deles, alinhados junto às paredes, de libré cinza e luvas brancas, imóveis como móveis que aprenderam a ficar de pé. Ele escolheu o mais velho — um mordomo de rosto encovado, chamado Barnabas — e o puxou para o vão sob a escadaria.
— O seu senhor. Quando foi a última vez que você o viu comer?
O velho piscou. E foi a primeira vez que piscou desde que Quill entrara no castelo — porque os sete criados não piscavam, não naturalmente, e Quill reparara na ausência antes de reparar no gesto.
— Sua Senhoria não janta com os convidados, senhor — respondeu Barnabas, a voz lenta, como quem recita algo aprendido sob dor. — Sua Senhoria janta depois.
— Depois de quê?
Silêncio. Os olhos do velho encheram-se d'água, mas o rosto não se moveu, e foi a coisa mais perturbadora que Quill já vira: um homem chorando por trás de um rosto que outra pessoa segurava por dentro.
— Quantos banquetes você já serviu aqui, Barnabas?
E o velho disse, num sussurro arrancado de algum poço de vontade que ainda resistia lá no fundo:
— Sirvo há quarenta anos, senhor. E Sua Senhoria não envelheceu um único dia. Os convidados chegam. Nunca são os mesmos. E na primavera, o castelo está sempre vazio de novo.
Ele puxou a manga da própria libré. O antebraço era uma renda de cicatrizes finas e paralelas — algumas velhas e brancas, outras recentes e rosadas. Marcas de sangria metódica. De alimentação prolongada. Barnabas não era um servo. Era gado que aprendera a andar ereto e servir vinho, mantido vivo porque era mais conveniente que um cadáver.
— Ele nos guarda — continuou o velho, as lágrimas escorrendo embora a boca mal se mexesse — para os anos magros, quando não há festa. Não há como fugir, senhor. As portas obedecem a ele. A tempestade obedece a ele. E ele está ouvindo agora mesmo, pelos meus ouvidos, porque os meus ouvidos pertencem a ele. Corra enquanto ele ainda acha isso divertido. É só isso que me deixam dizer.
Um sino tocou fundo no castelo. Grave, único, como um dobre de finados. E Barnabas endireitou as costas. As lágrimas secaram. O rosto voltou a ser aquela máscara imóvel, e a voz que saiu dele era outra — polida, servil, cor de nada:
— Mais vinho, senhor? Sua Senhoria insiste que a noite seja memorável.
Nas costas de Quill, no salão, uma mulher começou a gritar. Não de medo — de dor. Lady Vivienne Marlowe, a viúva de mãos cobertas de anéis, caiu de joelhos com as palmas apertadas contra o pescoço, e entre os dedos escorria um fio escuro e rápido demais. Ninguém a tocara. Ninguém estava perto dela. Ela apenas se abriu, como se uma boca invisível a tivesse encontrado, e enquanto o sangue jorrava por entre os anéis, os olhos dela se arregalaram para o teto — para algo pairando na escuridão entre as velas que só ela via.
Dois.
E Quill sentiu uma corrente de ar frio passar por ele. Vinda de dentro, não da janela. Como se algo enorme e invisível tivesse acabado de caminhar entre os convidados, roçado seu ombro, e achado graça.
A Capela dos Culpados
Quill fez o que um caçador de homens aprende antes de qualquer outra coisa: nunca deixe o rebanho espalhado. Presas soltas viram ossos soltos.
Com a autoridade fria de quem já obrigou multidões a obedecer, gritou por cima do pânico e empurrou os sobreviventes — com as mãos, literalmente — para o único cômodo do solar com uma porta de ferro e uma só entrada: a capela particular de Vhalgrave. Um lugar errado desde o primeiro olhar. As imagens sagradas tinham os rostos lixados até virarem pedra lisa. O crucifixo sobre o altar estava de cabeça para baixo, e ninguém teve coragem de dizer há quanto tempo. Mas tinha paredes grossas e uma tranca por dentro. Servia.
A porta rangeu e travou. Por um momento, houve silêncio — respiração ofegante, o cheiro de suor e perfume caro e medo, que tem cheiro próprio, azedo e metálico.
E foi ali, na segurança falsa da manada reunida, que os passados começaram a vazar. Porque o medo é uma faca que abre as pessoas por dentro.
O Coronel Thorne desabou num banco, o revólver pendendo da mão, e riu sozinho, um riso quebrado. — Vhalgrave. Eu conheço esse nome. Eu queimei esse nome. Havia uma aldeia, na campanha do sul, chamada Vhal. Recebi ordens de limpá-la. Mulheres. Crianças. Coloquei todos num celeiro e... — ele engoliu. — Disseram que o senhor daquelas terras jurou voltar dos mortos para nos cobrar, um a um. Nós rimos. Nós rimos, entende?
O Dr. Vane estava branco. — Eu comprei cadáveres desta casa. Anos atrás. Um agente vendia corpos frescos, sem perguntas, de Vhalgrave. Eu dissecava. Não perguntava por que nunca apodreciam direito, por que o sangue não coagulava. Deus, eu sabia que havia algo errado e não perguntei.
O Reverendo Sloane chorava contra o crucifixo invertido, murmurando que absolvera pecados que deveria ter denunciado, que enterrara meninas em terra não consagrada por dinheiro. O Inspetor Holloway confessou os casos que engavetara — desaparecimentos, sempre os mesmos, sempre gente pobre, sempre perto do Penhasco de Morn, e ele recebia uma bolsa e olhava para o outro lado.
E Quill entendeu, com uma clareza que revirava o estômago: ninguém ali era inocente. Aquele banquete não fora um acaso. Cada convidado carregava uma dívida de sangue com o nome Vhalgrave. Não tinham sido convidados. Tinham sido cobrados. E ele próprio — que deixara um homem enforcar-se no seu lugar em Whitcombe — talvez pertencesse àquela lista mais do que gostaria de admitir.
Uma vela se apagou. Depois outra. A escuridão avançou pelas paredes como maré.
E do teto da capela, de cabeça para baixo, colado às pedras como uma aranha impossível, uma voz desceu — grave, paciente, cultíssima, sem pressa nenhuma, porque o tempo lhe pertencia:
— Que belo hábito, o de confessar apenas quando a porta já está trancada. — Um farfalhar, como asas de couro. — Continuem. Eu adoro a parte em que se convencem de que a culpa dos outros é maior que a própria. Torna a colheita tão temperada.
Dez rostos se ergueram. Não havia nada no teto. Só sombra. Mas a sombra sorria, e dois pontos vermelhos se acenderam nela como brasas ao vento.
O Coronel apontou o revólver para cima e disparou. O estampido foi ensurdecedor na pedra. A bala se alojou no teto. A sombra riu — um som que gelou o sangue de todos — e então simplesmente se derramou para baixo, escorrendo pela parede como tinta viva, e três velas se apagaram de uma vez. Na escuridão, alguém gritou, e o grito foi interrompido no meio, com um som molhado de algo úmido sendo rasgado. Quando a próxima vela foi acesa por mãos trêmulas, o Reverendo Sloane estava pendurado no crucifixo invertido, imitando o Cristo às avessas, a garganta um segundo sorriso vermelho, os pés a trinta centímetros do chão.
Três.
E a coisa não estava mais no teto. Estava entre eles, respirando devagar, escolhendo o próximo.
A Conversa e a Fuga
Quill não era homem de rezar nem de gritar. Era homem de falar — de manter alguém ocupado com a boca enquanto avaliava a jugular. Então fez a única coisa que sempre soube fazer.
— Vhalgrave. — A voz saiu firme, e o simples fato de não tremer fez alguns nobres se agarrarem a ele como náufragos. — Você esperou quarenta anos. Quatrocentos, sei lá. Um homem que espera tanto não tem pressa. Me dê cinco minutos. Fale comigo.
Do escuro, um som que poderia ser prazer. Uma vela distante ganhou vida sozinha, chama azulada, e à luz dela surgiu a forma dele, encostada numa coluna com a elegância entediada de um anfitrião: alto, pálido como osso lavado, o rosto belo da maneira errada — belo como um túmulo bem esculpido. Lorde Corvin Vhalgrave.
— Um que sabe conversar — disse o ancião. — Faz tempo que não recebo um assim. Pergunte, caçador. Concedo aos condenados uma última cortesia: a verdade. É mais cruel que a mentira.
— Por que a festa? Podia matá-los na cama, um a um.
— Porque a fome do corpo se sacia com sangue — respondeu ele, quase terno —, mas a fome do que eu sou se sacia com a confissão. Vocês passaram anos convencidos de que escapariam do que fizeram. O sabor muda quando a presa finalmente entende que a conta sempre venceu.
— E o servo. Barnabas. As portas que obedecem, a tempestade. — Quill deu um passo lateral, ganhando ângulo. — Isso não é força de vampiro. É feitiço. Onde está a âncora?
Pela primeira vez, o sorriso dele vacilou. Um milímetro. E Quill soube que tocara em algo verdadeiro.
— Esperto — murmurou Vhalgrave, e o veludo da voz ganhou um fio de gelo. — Esperto demais para uma refeição.
E aí a conversa falhou — porque monstros que gostam de falar gostam ainda mais de punir quem chega perto demais da verdade. Vhalgrave não caminhou. Simplesmente estava mais perto, sem atravessar o espaço no meio, e sua mão fechou-se na garganta do Inspetor Holloway antes que qualquer olho registrasse o movimento. Ergueu o homem gordo do chão com um só braço, sem esforço, como quem levanta uma taça.
— Você engavetou os desaparecimentos — disse ao inspetor, cordial. — Cada bolsa de moedas era um dos meus abates que você limpou. Obrigado pela discrição. — E enterrou o polegar na garganta do homem, devagar, com a curiosidade de uma criança furando fruta madura, até o dedo desaparecer e o inspetor parar de espernear. O corpo caiu na pedra com um baque úmido.
Quatro.
Quill não recuou — avançou, porque a única direção segura contra um predador é a que ele não espera.
— Prata e água! — rugiu aos sobreviventes. — Os castiçais! A pia batismal! Agora!
Vane, mãos de médico rápidas mesmo no pânico, arrancou um castiçal de prata maciça do altar. O Coronel partiu um banco de carvalho com o peso do corpo, criando lascas longas como estacas. Uma criada mergulhou as mãos na pia e atirou a água benta em arco na direção do ancião. E funcionou — parcialmente. Onde a água o tocou, a pele pálida chiou e fumegou, e Vhalgrave sibilou, o primeiro som de dor da noite. A prata do castiçal fez os olhos vermelhos se estreitarem. As velhas regras tinham dentes. Não matavam a criatura — Quill percebeu na hora que eram armas de defesa, não de execução —, mas feriam, atrasavam, compravam respiro.
Vhalgrave recuou um passo, o rosto queimado remendando-se sozinho, e agora não havia mais entretenimento na voz. Só um ódio antigo e absoluto.
— Então será o modo difícil. Eu não como há três invernos, caçador. Vou saborear cada um de vocês.
Quill arrancou a tranca de ferro. — A porta! Prata na frente, água nos flancos, e ninguém se separa!
Mas o medo não obedece a ordens. Obedece só a si mesmo. No instante em que a porta cedeu, a manada se estilhaçou. Os cinco nobres restantes — gente que passara a vida mandando e nunca obedecendo — dispararam em cinco direções pelos corredores negros, cada um convencido de que sua rota era a esperta, cada um correndo sozinho para dentro da garganta da casa. Quill tentou segurá-los. Foi como tentar segurar fumaça.
E o solar se fechou sobre eles. Quill ouviu, enquanto corria. A casa devolvia os sons pelos corredores como uma boca que mastiga devagar.
Lady Ophelia Crane — que afogara a própria irmã numa banheira para herdar a fazenda e passara trinta anos usando o vestido de luto como escudo — gritou na galeria dos retratos. O grito terminou num estalo de vértebras e num arrastar molhado, e quando Quill passou correndo, viu apenas os sapatos de seda dela ainda de pé no chão, vazios, e uma trilha vermelha subindo pela parede, contra a gravidade, rumo ao teto.
Cinco.
O Juiz Cornelius Hale — que vendera sentenças por três décadas e mandara dezessete inocentes à forca com um bocejo — quase alcançou a porta principal. Quill o viu à frente, gordo, ofegante, as mãos já nas maçanetas de bronze. Então uma sombra se destacou do teto como tinta escorrendo e dobrou o homem para trás, na direção errada, com um som de galho verde partindo. A última coisa que o juiz viu foi o próprio reflexo nos olhos vermelhos que agora o julgavam.
Seis.
E de repente o corredor estava silencioso, e eram três.
Só três. Thaddeus Quill, com prata numa mão e uma estaca de carvalho na outra. O Dr. Cassius Vane, tremendo, apertando o castiçal como um náufrago agarra madeira, os olhos de médico agora vendo mortes que nenhuma faculdade lhe ensinara. E o Coronel Reginald Thorne, sem medalhas para salvá-lo, murmurando o nome da aldeia que queimou como se fosse uma oração que chegou tarde demais.
Os três se olharam no corredor gelado e compreenderam, ao mesmo tempo, a verdade completa e final: não era um assassino. Não era um homem. Era um morto antigo que andava, e eles três eram o que sobrara do banquete dele.
À frente, as portas duplas de bronze estavam entreabertas — as mesmas que o juiz não alcançou. Além delas, o pátio, o vento salgado, a lua doente sobre o mar. Uma saída. E os três sabiam, sem dizer, que ela estava aberta porque Vhalgrave queria que estivesse. Porque um predador saciado gosta de dar aos últimos a ilusão da corrida antes de recolhê-los.
Atrás deles, ecoando pela casa que respira, a voz cordial desceu mais uma vez, quase carinhosa:
— Corram, meus últimos três. Eu adoro esta parte. A esperança é o melhor tempero de todos.
Eles correram. Não para o mar, nem para o penhasco — para as luzes fracas de um vilarejo monte abaixo, chamado Mornwick, onde uma igrejinha de pedra erguia o campanário torto contra o céu. Solo consagrado. Sinos de bronze. A promessa velha de que há lugares onde a escuridão não pode pisar.
Era a escolha dos desesperados. E, por isso mesmo, a mais humana de todas.
A Colheita
A partir daqui, a narração desce ao gelo. Deixa de ser a deles. Passa a ser a dele.
Eu não tenho pressa. Pressa é uma doença dos vivos, que medem a existência em batimentos porque sabem que os batimentos acabam. Eu não meço nada. Já vi este vilarejo ser floresta, ser fazenda, ser cinza, ser vilarejo de novo. Vou vê-lo ser floresta outra vez, e estes três não serão nem lembrança na lama.
Deixo-os chegar à igreja. Deixo-os desabar no chão de pedra diante do altar, ofegando, rindo daquele riso histérico de quem acredita, por um instante insano, que sobreviveu.
— Solo sagrado — arqueja o soldado. — Ele não pode entrar. As histórias dizem...
— As histórias — digo eu, do confessionário — dizem tantas coisas.
E saio da penumbra vestido do padre que já foi meu há décadas, a garganta dele marcada por dois furos velhos e brancos. Ergo as mãos e olho em volta, para o Cristo, para as paredes, com uma ternura cansada.
— Meninos. Eu comprei este vilarejo antes dos avós de vocês nascerem. Sangrei este padre até ele me pertencer. Consagrei este chão de novo, no meu nome, com o sangue certo nas quatro pedras certas. Vocês não correram para um santuário. Correram para o coração da minha despensa. Eu apenas quis ver se conseguiriam.
Há um prazer particular no número três. É quando a coragem morre e a matemática começa. Cada um deles calcula agora: se ele pegar os outros dois primeiro, eu ganho tempo. Vejo esse cálculo nascer nos olhos deles, e é lindo. É a última coisa humana antes de o gado voltar a ser gado.
Começo pelo médico, porque a covardia é o tempero que preciso servir aos outros dois. Um bravo morrendo inspira. Um covarde morrendo contamina. Deixo Cassius Vane fugir — abro-lhe a porta da sacristia com um sopro de vontade, e ele a atravessa achando que a encontrou, achando que foi esperto, achando, a mais doce das mentiras, que existe um depois para ele. Ele se tranca num depósito de defuntos da igreja, apropriado para um homem que amava tanto os mortos alheios, e se agacha entre os caixões apertando o castiçal de prata como se o metal fosse fé.
Deixo a esperança crescer nele como um tumor. E então falo, da escuridão do próprio depósito, onde estive o tempo todo:
— Cassius. Você comprou os meus mortos por vinte anos. Nunca perguntou por que não apodreciam. Deixe-me devolver a cortesia da curiosidade.
Ele arremessa o castiçal na direção da voz. A prata passa pelo lugar onde eu não estou mais. Desperdiça sua única defesa no ar vazio, como os covardes sempre fazem — gastam a salvação no fantasma e ficam de mãos vazias diante da coisa real. Tomo-o por trás, sem pressa. Não rasgo a garganta dele; o médico merece uma lição sobre a própria arte. Perfuro a jugular com uma só presa, limpo, cirúrgico, do jeito que ele cortava, e bebo devagar enquanto o coração dele bombeia a própria morte para dentro da minha boca. Deixo-o consciente até o fim. Deixo-o sentir a dissecação de que foi autor a vida toda, agora aplicada em si. E a última coisa que Cassius Vane registra é que a morte não tem nada de científico. É só fome, e escuridão, e a mão de alguém muito mais antigo que a medicina.
Sete.
As Trezentas Vozes
Largo o corpo entre os caixões, onde ele pertence, e deixo de propósito uma pegada de sangue levando de volta ao altar. Quero que os outros dois encontrem Vane. Quero que entendam que a fuga é uma piada que eu conto, e a plateia sempre morre rindo.
Quando volto à nave, encontro os dois onde os deixei. Reginald Thorne ergueu a estaca de carvalho e se pôs à frente do caçador, cobrindo o flanco, do jeito que cobriu flancos a vida inteira em guerras que o fizeram monstro. Há uma dignidade nele agora que não houve em nada que ele fez vivo. Curioso. A morte é a última chance que os homens têm de serem melhores do que foram, e quase nenhum aproveita. Thorne está aproveitando. Isso quase me comove. Quase.
— Coronel — digo, cordial. — Trezentas vozes num celeiro. Elas me pediram um favor, há muito tempo. Eu disse que esperaria pela oportunidade certa.
Ele range os dentes. — Então venha, cadáver. Venha buscar.
Eu venho. E ele desfere a estaca — um bom golpe, rápido, mirado no coração, o golpe de um homem que estudou onde ficam as coisas importantes dentro de um corpo. Num jovem da minha espécie, teria acertado. Mas eu já não estava ali. Fecho a mão em torno do punho dele no ar, e os ossos do antebraço cedem sob meus dedos como gravetos molhados. A estaca cai. Ele não grita — engole a dor, o velho soldado, os olhos cravados nos meus, negando-me até o último instante a satisfação do medo.
Respeito isso. Então concedo-lhe a única coisa que um homem como ele poderia querer no fim: a verdade sobre o que fez. Inclino-me até que meus lábios toquem o ouvido dele, e não bebo — ainda não. Primeiro, deixo as trezentas vozes falarem através de mim. As vozes do celeiro de Vhal que ele trancou e incendiou: os nomes das crianças, o cheiro da fumaça, o som que uma mãe faz quando percebe que a porta não vai abrir. Despejo trezentas mortes no ouvido de um homem só, comprimidas num único segundo eterno, e vejo — finalmente — a couraça de Reginald Thorne rachar. Não de dor. De reconhecimento. Ele morre sabendo, com absoluta clareza, exatamente o que foi.
Só então rasgo a garganta e bebo. É um sangue amargo, velho, encharcado de culpa. O melhor tipo.
Oito.
A Semente
Largo o soldado aos pés do caçador, uma oferenda, uma mensagem. E, enfim, viro-me para Thaddeus Quill — o último.
— Restou você — digo, e limpo o sangue de Thorne do canto da boca com o cuidado de um lorde à mesa. — Você viu a joia. Eu sei que viu.
Ergo o medalhão de prata negra do peito do padre morto e deixo a pedra vermelha pulsar à luz das velas — a âncora de tudo: a tempestade, as portas, o solo falsamente sagrado sob os joelhos dele. Exibo-a como um pai exibe um brinquedo a uma criança que jamais o alcançará.
— Contemple-a bem, caçador. A esperança que você sente agora, essa fagulha de se eu conseguir tomá-la — essa esperança é minha também. Eu a plantei. Eu me alimento dela. E vou saboreá-la em você até o último instante, quando você entender, com a garganta já aberta, que esteve a um braço da salvação a noite inteira, e que o braço nunca foi longo o bastante.
O caçador não recua. Não implora. Apenas me olha, com uma calma que — devo admitir — não vi nos outros oito. E diz, baixinho:
— Obrigado. Era só isso que eu precisava saber.
Não entendo o que ele quer dizer. E faz muito tempo que uma frase humana não me deixa sem entender.
Ele sabe que vai morrer. Soube desde a primeira garganta rasgada. Mas não é homem de morrer limpo. É homem de deixar dívidas cobradas mesmo depois de frio. E, enquanto eu saboreio o próprio não-entendimento, ele faz três coisas, rápido.
Primeiro, fala — alto, claro, gravando na minha memória aquilo que quer que seja lembrado: — Você tem razão. Eu não alcanço a joia. Mas eu não vim sozinho, Vhalgrave. E o próximo não virá por moedas. — Uma meia-verdade envenenada, plantada de propósito, para que eu passe os próximos meses achando que sei o que me caça.
Segundo, com a mão que eu não vejo, escondida contra o corpo, ele talha no chão de pedra, num movimento só, um símbolo que só outro caçador reconheceria: uma seta e três riscos. E pressiona o polegar cortado sobre a talha, deixando sangue na pedra. Sangue que aponta. Sangue que fala a língua muda dos que vivem de rastrear.
Terceiro — e isto nem eu percebo, porque é o segredo que ele leva consigo — ele grava na memória tudo o que aprendeu, para uma carta que ainda não teve tempo de escrever. A joia. A água benta que queima. A prata que estreita meus olhos. A regra do amanhecer. O solo falso. E o nome. Sempre o nome.
— Palavras bonitas de um homem sem futuro — digo. — Mas você errou numa coisa, caçador. Não haverá corpo para ninguém encontrar. Não haverá pista. Eu não deixo rastros há trezentos anos.
— Eu sei — diz ele, e sorri, o sorriso terrível de quem já perdeu e não se importa mais. — Mas você deixa carcaças, Vhalgrave. Toneladas delas. E carcaça é rastro pra quem sabe cheirar.
Eu paro de sorrir.
E o tomo. Enfim, sem cerimônia, sem discurso — porque o caçador me roubou o prazer do discurso, e isso, mais do que qualquer estaca, é uma ferida que eu levarei comigo. Minhas presas encontram a garganta de Thaddeus Quill. O sangue do último dos dez esvai-se na minha boca.
Nove. E um convidado que nunca contei, o próprio Sir Aldous, faz dez. O banquete está completo. A safra, colhida.
Recolho-me ao castelo, saciado por mais um inverno. Amanhã as portas se abrirão sozinhas, os poucos servos varrerão o pó, e na primavera o solar estará vazio de novo, como sempre esteve, como sempre estará.
Mas no chão da minha igreja falsa, sob o corpo esfriando do caçador, uma seta talhada em pedra e selada com sangue aponta para o pescoço de um padre morto. E lá fora, o mar continua trazendo à praia do Penhasco de Morn aquilo que trezentos anos de banquetes deixaram: carcaças, e carcaças, e carcaças, empilhadas sob uma ilusão de areia dourada que só uma joia sustenta.
Eu venci. Como sempre venço.
Só não sei, ainda, que o caçador tinha razão.
Que alguém vem.
⚜ ⚜ ⚜
Fim da primeira parte