O Rastro do Pesadelo
A lama escura de Oakhaven grudava nas suas botas pesadas. A chuva fina e constante não limpava a sujeira; apenas a tornava mais penetrante. O Emissário estava parado na praça principal, uma área de paralelepípedos gastos rodeada por construções de madeira escura que pareciam se encolher sob o céu cinzento e opressivo. Ao longe, a Floresta dos Sussurros se erguia como uma muralha negra, impenetrável e observadora. O vento trazia um cheiro de terra molhada, mofo e algo mais... algo doce e podre, que lembrava carne esquecida.
O Emissário sentia o peso da máscara bizarra em seu rosto. Para os camponeses que cruzavam seu caminho, olhando para o chão para evitar seu olhar, ele não era um homem; era o presságio de um problema terrível. Eles sabiam que, se um Emissário estava ali, o desaparecimento das crianças não era um simples sequestro.
Ele era uma figura sombria e imponente, moldada desde a infância por treinamentos rigorosos para resolver os problemas mais obscuros e sobrenaturais do reino. Destacava-se pelas vestes e por uma capa inteiramente negras, que o ajudavam a se misturar às sombras e davam um ar enigmático à sua presença. Sua marca registrada mais perturbadora era uma máscara teatral de bizarrice antiga, que ele assumia assim que começava o seu "trabalho", ocultando qualquer traço de humanidade ou emoção. Carregava uma espada na cintura e era um mestre no preparo e uso tático de venenos, óleos e compostos alquímicos variados, que aplicava em suas lâminas ou arremessava contra os alvos. Geralmente órfão, bastardo ou uma criança abandonada, não possuía laços familiares, tendo sido criado estritamente como uma ferramenta letal e implacável a serviço de governantes.
O prefeito da cidade, um homem gordo e pálido chamado Elias Vance, o aguardava na varanda da maior estalagem, a "Estalagem do Descanso Eterno". Ele torcia as mãos nervosamente, tremendo sob o frio. Ao se aproximar, evitando olhar diretamente para a máscara, disse com a voz falha:
— Obrigado por vir, Emissário. O desespero... o desespero tomou conta de nós. Duas crianças, senhor. Duas. O primeiro foi o pequeno Thomas, filho do ferreiro. O segundo... a pequena Elara, filha da padeira. Nenhum rastro físico. Apenas um sussurro. A bruxa.
O Interrogatório do Prefeito
Ele apontou com o dedo trêmulo para a floresta negra. Sob a chuva fina que insistia em castigar Oakhaven, o Emissário deu um passo à frente. O movimento de sua capa negra fez o prefeito recuar instintivamente, com o olhar fixo nos traços estáticos e bizarros da máscara de teatro. A voz do caçador ecoou de forma abafada, porém fria e cortante por trás do disfarce:
— Conte-me exatamente como as crianças sumiram. Quando, onde, e o que vocês chamam de "rastro estranho".
Elias engoliu em seco, limpando o suor frio da testa que se misturava com as gotas de chuva. Olhou para os lados, como se temesse que as próprias paredes das casas estivessem ouvindo.
— O pequeno Thomas sumiu há quatro noites — começou Elias, com a voz trêmula. — Ele estava brincando no quintal dos fundos da ferraria, que fica quase colada na borda da floresta. Já estava escurecendo. O pai dele entrou por cinco minutos para apagar a forja. Quando voltou... o menino tinha sumido. Sem gritos. Sem barulho de luta.
O prefeito aproximou-se um pouco mais, o hálito quente cheirando a vinho barato e medo.
— O rastro... não eram pegadas de botas, Emissário. Eram marcas profundas na lama, longas, como se algo tivesse arrastado garras pesadas, mas... mas o formato lembrava pés humanos deformados, com dedos longos demais. E havia um rastro de cinzas. Cinzas frias, pretas, espalhadas em cima da lama, subindo em direção às árvores.
Ele fez uma pausa, engolindo o choro.
— Dois dias depois, no meio da tarde cinzenta, a menina Elara sumiu de dentro da própria padaria. A mãe dela foi ao porão buscar farinha. Quando subiu, a porta dos fundos estava escancarada. O mesmo rastro de cinzas cobria o chão de madeira limpo da padaria... e as mesmas marcas estavam no chão do lado de fora.
Elias Vance juntou as mãos, quase em uma prece implorante.
— O povo está em pânico, senhor. Ninguém dorme. Dizem que a Bruxa da Floresta dos Sussurros acende seus caldeirões com a carne dos inocentes.
Elias se encolheu ainda mais sob o beiral da estalagem, olhando fixamente para a máscara teatral, como se esperasse que ela mudasse de expressão a qualquer momento.
— Emissário... você sabe, as pessoas na taverna bebem demais, e o álcool faz a língua solta criar monstros piores do que os que existem — sussurrou ele, com a voz embargada. — Mas há algo que não sai da boca dos anciãos.
Ele limpou a garganta, desconfortável:
— Dizem que a criatura não é exatamente uma mulher comum. Eles a chamam de Tecelã de Cinzas. Antigamente, contam as crônicas mais antigas que aqui havia uma eremita, uma curandeira que foi acusada de pactuar com algo que veio do frio. O povo a queimou viva em sua cabana na beira da floresta. Mas dizem que, ao queimar, ela não gritou... ela riu, e espalhou suas cinzas ao vento, amaldiçoando a terra para que nunca mais houvesse calor nesta região.
Ele fez uma pausa, tremendo.
— Os boatos dizem que ela não come a carne para se alimentar, mas para habitar o corpo. Ela precisa de corpos jovens, puros, para se ancorar ao mundo dos vivos novamente. Se as cinzas aparecem nos locais, é porque ela está deixando seu estado etéreo e assumindo uma forma física. E há uma última coisa, senhor... o ferreiro disse que, pouco antes de Thomas sumir, o cão de caça dele não latiu. Ele se escondeu e chorou, com as orelhas baixas. Os animais sentem algo que nós não sentimos. Dizem que, onde ela pisa, o cheiro de ozônio e de carne queimada é insuportável.
Elias olhou para a floresta e fez o sinal da cruz.
— Por favor, Emissário... se for ela, não tente apenas lutar com aço. As histórias dizem que o fogo foi a ferramenta da ruína dela, mas também é a única coisa que a mantém presa ao que ela se tornou.
A chuva pareceu engrossar ligeiramente enquanto o Emissário se despedia do prefeito com um aceno de cabeça frio e silencioso. Suas botas estalaram contra o cascalho úmido e a lama enquanto ele caminhava em direção à borda da cidade, onde a silhueta escura da ferraria se erguia contra o paredão de árvores da Floresta dos Sussurros.
Interrogando o Ferreiro
A ferraria era um edifício robusto, de pedra na base e madeira enegrecida pelo carvão no topo. No entanto, a chaminé estava fria; nenhum som de martelo contra a bigorna ecoava dali. O silêncio era pesado.
Nos fundos da propriedade, logo onde o quintal encontrava os primeiros galhos retorcidos da floresta, ele encontrou o ferreiro. Era um homem imenso, de braços grossos e barba vasta, mas agora estava de joelhos na lama, com os olhos fixos no chão, segurando um pequeno brinquedo de madeira esculpida. Ao lado dele, um cão de caça grande e magro estava encolhido sob um teto de palha, tremendo violentamente e soltando ganidos baixos sempre que o vento soprava mais forte vindo das árvores.
O homem percebeu a aproximação do caçador. Ao ver as vestes negras e a máscara teatral perturbadora, ele não se assustou; em vez disso, um brilho de desespero e raiva surgiu em seus olhos injetados de sangue.
— Você é o homem que os governantes mandaram? — a voz dele era um trovão rouco, prestes a quebrar. — Aquela... aquela coisa levou o meu Thomas. Ela passou por cima da minha cerca como se não fosse nada. Meu cão, que já enfrentou lobos e ursos, urrou de medo e se escondeu. Eu não ouvi nada, senhor... nada!
Ele apontou para o chão lamacento logo à frente. Devido à chuva constante, os rastros estavam começando a perder a nitidez, mas o Emissário ainda conseguia ver: sulcos profundos e deformados na lama, longos demais para serem humanos, misturados a uma fina camada de fuligem preta e oleosa que a água da chuva estranhamente parecia não conseguir lavar por completo.
O caçador se agachou próximo à lama fria, ignorando a água que escorria pelas abas da sua capa negra. Seus dedos enluvados tocaram a substância escura e oleosa. Ao aproximar o resíduo da máscara para tentar senti-lo, um odor pungente atravessou as fendas do disfarce teatral: não era apenas fuligem comum de lareira. Cheirava a gordura animal queimada misturada com enxofre. Ao esfregar a substância entre os dedos, notou que ela deixava uma mancha arroxeada na luva — uma reação típica de quando cinzas mágicas ou de origem necromântica entram em contato com a umidade.
O formato da pegada era bizarro. O peso da criatura afundara profundamente na terra, indicando que ela era muito mais pesada do que um humano normal, apesar de ter dedos longos. O padrão dos passos mostrava que ela não estava correndo; caminhara com calma, deliberadamente, sabendo exatamente o que estava fazendo. O rastro avançava em linha reta para dentro dos primeiros arbustos espinhosos da Floresta dos Sussurros, sem desviar um único centímetro.
O Emissário se levantou, a silhueta imponente e a máscara inexpressiva voltando-se para o homem devastado. Sua voz saiu abafada, ecoando de forma intimidadora:
— Você mencionou que não ouviu nada, mas e o cheiro? O prefeito falou sobre ozônio e carne queimada. E por que você acha que ela escolheu o seu filho?
O ferreiro ergueu os olhos, marejados e injetados de sangue, engoliu em seco e apertou o brinquedo de madeira contra o peito.
— O cheiro... sim. Eu achei que era apenas o carvão da minha forja agindo estranho, mas quando saí aqui fora, o ar estava... pesado. Sabe quando um raio está prestes a cair perto de você e os pelos do braço se arrepiam? Estava exatamente assim. E o cheiro de carne queimada... parecia que alguém tinha jogado um animal inteiro no fogo e o deixado torrar até virar carvão.
Ele limpou o nariz com as costas da mão grossa e calejada, soltando um riso amargo e desesperado.
— Por que o meu Thomas? Eu não sei, Emissário! Eu sou apenas um ferreiro. Eu forjo ferraduras, pregos, ferramentas para os camponeses... Eu nunca fiz mal a ninguém! Mas... há uma coisa. Três dias antes do sumiço, Thomas voltou da bordinha da floresta dizendo que tinha visto uma "moça bonita" sentada em um tronco, que prometeu ensinar a ele como fazer os pássaros de madeira dele voarem de verdade. Eu briguei com ele, disse para nunca mais chegar perto das árvores. Eu achei que era imaginação de criança... Meu Deus, eu devia ter trancado ele no porão!
O homem desabou em um choro silencioso, os ombros largos sacudindo sob a chuva fina.
Deixando o ferreiro imerso em sua dor, o Emissário ajustou a capa negra e caminhou de volta em direção ao centro do vilarejo. O contraste era evidente: enquanto o primeiro sumiço ocorrera no limiar da floresta, sob o manto da noite, o segundo fora um ato de audácia pura, desafiando a luz do dia e a suposta segurança de um lar.
Ao entrar na padaria, o calor residual dos fornos contrastava terrivelmente com o clima gélido do lado de fora. O ambiente cheirava a pão amanhecido, mas havia uma nota sutil e perturbadora por baixo — o mesmo odor de enxofre e gordura queimada que encontrara na ferraria, embora ali estivesse mais fraco, quase disfarçado pelo aroma do trigo.
Ele se dirigiu imediatamente para os fundos do estabelecimento. A porta de madeira pesada que dava para o beco estava aberta, balançando levemente com o vento frio. Agachando-se para examinar o chão de tábuas corridas, o Emissário começou a analisar a cena. O contraste ali era o que mais chamava a atenção dele. Se na ferraria a lama registrara pegadas profundas e disformes, ali o chão de madeira limpo revelava um padrão totalmente diferente.
Havia uma trilha nítida de fuligem preta e oleosa que começava exatamente na soleira da porta dos fundos e avançava em direção ao centro da cozinha. Diferente da lama da ferraria, onde a criatura afundara devido ao seu grande peso, as tábuas de madeira da padaria não rangeram e não apresentavam marcas de pressão ou arranhões. Era como se, ao entrar no ambiente doméstico, a criatura tivesse o poder de se tornar leve como uma pluma ou estivesse flutuando milímetros acima do chão, deixando apenas a fuligem cair de seu corpo. Perto da mesa onde a farinha era preparada, a trilha de cinzas tornava-se caótica. Havia marcas borradas na fuligem, indicando que fora ali que a pequena Elara fora capturada. Não havia sinais de sangue, o que reforçava a ideia de que as crianças estavam sendo levadas vivas.
A criatura parecia alternar sua consistência física: era pesada e besta na lama da floresta, mas etérea e silenciosa como um fantasma dentro das casas.
Não havia mais o que investigar; a urgência do Emissário falava mais alto. O tempo era o pior inimigo quando vidas inocentes estavam em jogo, e esperar na segurança da cidade só daria à Tecelã de Cinzas mais tempo para consumir ou habitar o corpo dos pequenos Thomas e Elara. Ele caminhou com passos firmes até o limite onde o vilarejo terminava e a Floresta dos Sussurros começava. Diante dele, as árvores antigas pareciam se curvar, criando um teto de galhos retorcidos que bloqueava quase toda a luz do dia gélido.
Antes de dar o primeiro passo sob as sombras da floresta, ele puxou um dos frascos de óleos alquímicos presos ao seu cinto. Sabendo que o fogo e o calor pareciam ser os pontos fracos daquela criatura — e que ela deixava um resíduo gorduroso —, derramou um líquido viscoso e âmbar ao longo do gume de sua espada. Era um extrato alquímico altamente inflamável. Um único atrito ou faísca faria a lâmina arder em chamas persistentes que não se apagariam com a chuva fina.
Com a mão esquerda, ele ajustou a máscara teatral no rosto, garantindo que estivesse firme. A partir daquele momento, deixava de ser o homem e assumia a persona implacável do Emissário.
Entrando na Floresta dos Sussurros
O caçador cruzou a linha das árvores, seguindo a trilha borrada de cinzas e a sutil mancha arroxeada que ela deixava na umidade da vegetação rasteira. O silêncio ali dentro era sufocante. O som da chuva batendo nas folhas altas parecia distante. Conforme avançava cerca de vinte minutos mata adentro, o cheiro de ozônio e carne queimada ia se tornando cada vez mais forte, agredindo seus sentidos mesmo por trás da máscara. A névoa cinzenta começou a subir do chão, dificultando a visão.
De repente, a trilha de cinzas que ele estava seguindo fez uma curva abrupta e se espalhou em um círculo perfeito ao redor de uma árvore imensa e morta, cujo tronco estava completamente oco. No chão, em volta do tronco, estendiam-se carcaças e mais carcaças de restos humanos; a maioria parecia ser de crianças. Na frente do tronco, havia um círculo com desenhos diabólicos, indicando que a bruxa realizava sacrifícios ali.
Logo na entrada do tronco oco, o Emissário percebeu um pequeno pedaço de pano rasgado... um pedaço do vestido azul que Elias mencionou que a pequena Elara estava usando.
O ar ao seu redor ficou subitamente tão gélido que sua respiração formou uma névoa espessa. Então, ouviu-se um estalo de galho quebrando logo atrás dele, seguido por sussurros femininos — como um coro formado por uma jovem e uma idosa —, ecoando como se viesse de todas as direções ao mesmo tempo:
— Um brinquedo novo veio nos visitar... ou um substituto para as cinzas?
Sua mente, forjada em anos de treinamento severo e privações, não se deixou abalar por sussurros sobrenaturais. Ele sabia que o medo era a primeira arma de uma bruxa, e ceder a ele era a morte; por isso, confiou nos seus instintos treinados para reagir ao perigo iminente.
No exato milésimo de segundo em que a última sílaba do sussurro morreu no ar gélido, antes mesmo que a criatura pudesse desferir qualquer golpe, seu corpo reagiu por puro instinto. O Emissário não olhou para trás com pressa; em vez disso, girou o corpo lateralmente em um movimento fluido, usando a própria inércia para sacar a espada da bainha. No mesmo arco do movimento, raspou deliberadamente o gume da lâmina contra a fivela de ferro reforçado do seu cinto.
HAC!
Uma chuva de faíscas saltou do metal e encontrou o óleo alquímico viscoso. Em um piscar de olhos, a escuridão da Floresta dos Sussurros foi rasgada por uma explosão de chamas alaranjadas e violentas que subiram pela lâmina. O fogo iluminou a névoa, e o calor repentino fez o ar estalar. O golpe circular de sua espada flamejante cortou o ar exatamente onde a névoa estava mais densa às suas costas.
Um grito agudo, misto de dor e surpresa violenta, ecoou pela mata. A luz das chamas revelou a criatura que rastejava em sua direção: uma silhueta alta, magra e horrenda. A pele dela parecia feita de casca de árvore queimada e cinzas compactadas; os dedos eram longos e terminavam em garras de carvão afiadas. O rosto, semi-humano, contorceu-se em pura agonia quando o calor da lâmina lambeu o ar a centímetros de seus olhos vazios.
A Tecelã de Cinzas recuou rapidamente, sibilando como uma serpente ferida, deixando marcas pretas de queimadura na névoa onde as chamas da espada a alcançaram. O calor do aço forçou a bruxa a se materializar completamente, perdendo sua forma etérea. Ela estava vulnerável, mas seus olhos brilhavam com um ódio assassino.
Ao mesmo tempo, com a iluminação do fogo, ele jogou o olhar rapidamente para o tronco oco da grande árvore morta à sua esquerda. Lá dentro, encolhidas e amarradas por cordas tecidas de cabelos e galhos secos, estavam as duas crianças. Thomas e Elara estavam pálidos, cobertos por uma fina camada de fuligem, mas conseguia-se ver o peito de ambos subindo e descendo. Eles estavam vivos, mas pareciam em um transe profundo.
A bruxa se ergueu em toda a sua estatura esguia, abrindo os braços cobertos de cinzas, prestes a conjurar um ataque ou avançar novamente.
O Emissário não hesitou diante do horror. Enquanto a Tecelã de Cinzas se erguia com os braços abertos para conjurar sua feitiçaria, ele já estava com a mão livre mergulhada nos compartimentos do seu cinto. O conhecimento alquímico era tão letal quanto o aço. Com a velocidade de um raio, seus dedos puxaram um frasco de vidro reforçado contendo um líquido espesso e esverdeado — um composto volátil derivado de sais metálicos e pólvora refinada, projetado especificamente para reagir violentamente com calor extremo.
Sem dar tempo para a bruxa fechar as mãos ou sussurrar sua maldição, ele arremessou o frasco diretamente contra o peito de casca queimada da criatura. No mesmo instante, projetou seu corpo para a frente e desferiu um golpe vertical descendente com a espada flamejante. O gume da lâmina cortou o frasco no ar, exatamente na frente do esterno da bruxa.
BOOM!
A reação foi imediata e cataclísmica. O óleo alquímico da espada acendeu o composto volátil, gerando uma explosão de chamas esmeraldas brilhantes e intensas. O deslocamento de ar jogou a névoa para longe. A Tecelã de Cinzas soltou um guincho ensurdecedor, um som que misturava o grito de uma mulher moribunda com o estalar de uma floresta inteira pegando fogo.
O fogo verde não apenas queimava; ele consumia a gordura e o enxofre que mantinham o corpo de cinzas da bruxa coeso. Ela tentou recuar, mas as chamas alquímicas grudaram em sua pele de carvão, derretendo sua forma física. As garras dela se desfizeram em fuligem comum antes mesmo de tocarem o chão. Em poucos segundos, a criatura cambaleou, caiu de joelhos e se desintegrou por completo, virando uma pilha de cinzas cinzentas e inertes que o vento da floresta começou a dissipar.
O silêncio mortal retornou à Floresta dos Sussurros. A ameaça fora erradicada.
O Emissário embainhou sua espada, cujo fogo foi se extinguindo lentamente à medida que o óleo terminava de queimar. A máscara teatral permanecia fria e inexpressiva, mas seus olhos por trás dela buscaram imediatamente o tronco oco. Com a morte da bruxa, o transe que quebrava as mentes das crianças começou a se dissipar. Thomas foi o primeiro a piscar, soltando um gemido baixo e confuso. Elara abriu os olhos logo em seguida, assustada com a escuridão e o cheiro de queimado, mas ao ver a silhueta imponente do Emissário — a capa negra e a máscara que agora parecia um escudo protetor —, ela não chorou. Ela sabia que o pesadelo havia acabado.
O Emissário cortou as cordas de cabelo e galhos com uma adaga pequena. Cuidadosamente, pegou Elara nos braços e gesticulou para que Thomas segurasse firme na sua capa.
Diário do Emissário
Local: Entreposto de Oakhaven Status do Contrato: Concluído. Pagamento recolhido.
Mais uma pira apagada. A coisa que os locais chamavam de "Tecelã de Cinzas" nada mais era do que um parasita residual, um espectro ancorado pelo ódio e por fuligem alquímica. Foi consumida pelo fogo verde. A floresta está silenciosa outra vez. Por enquanto.
Os camponeses olham para mim com o mesmo pavor que tinham da bruxa. Para eles, a máscara que uso não é diferente do rosto do monstro que rastejava na névoa; ambos somos lembretes de que o mundo além de suas cercas é feito de dentes e escuridão. Eles agradecem com moedas de prata e mãos trêmulas, mas fecham as portas assim que dou as costas. É o preço do manto. É o destino daqueles que foram criados para ser apenas a lâmina e nunca o abraço.
No entanto... enquanto limpo a fuligem da minha capa e preparo os cavalos para a estrada, olho para os meus dedos e não vejo o sangue deles. Thomas voltou para os braços do pai. Elara dorme segura sob o teto da padaria. Na maioria das vezes, o relatório de um Emissário serve apenas como certidão de óbito para inocentes que cheguei tarde demais para salvar.
Mas hoje não.
Hoje, os deuses do frio ou o mero acaso decidiram ser clementes. É um sentimento estranho, quase esquecido sob esta máscara... o de entregar a vida de volta para onde ela pertence. Que as cinzas daquela cabana nunca mais se ergam. O caminho me chama.
⚜ ⚜ ⚜
Fim